quinta-feira, dezembro 28, 2006
"dame la mano"
dame la mano y me amarás.
Como una sola flor seremos,
como una flor, y nada más...
El mismo verso cantaremos,
al mismo paso bailarás.
como una espiga ondularemos,
como una espiga, y nada más.
Te llamas Rosa y yo Esperanza;
pero tu nombre olvidarás,
porque seremos una danza
en la colina, y nada más..."
Antología Poética de Gabriela Mistral
segunda-feira, dezembro 25, 2006
sexta-feira, dezembro 22, 2006
quinta-feira, dezembro 21, 2006
quarta-feira, dezembro 20, 2006
terça-feira, dezembro 19, 2006
segunda-feira, dezembro 18, 2006
quinta-feira, dezembro 14, 2006
ver
Para ver os campos e o rio.
Não é bastante não ser cego
Para ver as árvores e as flores.
É preciso também não ter filosofia nenhuma.
Com filosofia não há árvores: há ideias apenas.
Há só cada um de nós, como uma cave.
Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora;
E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse,
Que nunca é o que se vê quando se abre a janela."
Alberto Caeiro - Poemas Inconjuntos
terça-feira, dezembro 12, 2006
quarta-feira, dezembro 06, 2006
crescer
terça-feira, dezembro 05, 2006
domingo, dezembro 03, 2006
quinta-feira, novembro 30, 2006
terça-feira, novembro 28, 2006
trilho certo
palavras de mesmo sentido.
Na caminhada,
um carreiro,
uma estrada,
um rasgo na terra feito por pés...
Um princípio, um meio e um fim.
Encruzilhadas,
pedras, buracos e chuva…
E, por vezes, o sol
e belas paisagens.
O caminho é sempre o mesmo,
a caminhada única e irrepetível.
Gostava que no meu caminho
Os sinais fossem setas
E aparecessem com frequência
Para me indicar o trilho certo.
Existirá trilho certo?
segunda-feira, novembro 27, 2006
sexta-feira, novembro 24, 2006
quarta-feira, novembro 22, 2006
atlântida
terça-feira, novembro 21, 2006
domingo, novembro 19, 2006
aniversário
Há 33 anos nasci.
O mundo não tremeu.
O mundo não aplaudiu.
Fora os meus mais queridos,
creio até que ninguém reparou.
Como todas as crianças,
fui mais uma que chorando
reclamei o meu lugar no mundo.
33 anos passados,
não fiz o mundo tremer,
não fiz o mundo aplaudir.
E aplausos apenas recebo
a cada 19 de Novembro.
Espanto-me assim por ter nascido,
admiro-me por aqui estar.
Mas não sabendo o motivo
o que importa é que aqui estou
e sem medo digo,
mais 33 quero ficar.
sábado, novembro 18, 2006
alegre fantasia
A minha terra é bonita. Tão bonita e alegre que que dá vontade de inventar histórias sobre ela para contar às crianças em dias cinzentos. Algo parecido com a história da casa de chocolate que existia no meio da floresta. Só que na minha terra, em vez de serem de chocolate, há casas de chupa-chupa, às riscas de açucar e frutas. Além disso, existem muitas, todas juntas. E estão em sítios onde ninguém se perde, pelo contrário vão lá de propósito. É que ficam entre o mar e a ria. E em dias de sol, brilham em mil cores. De açucar, claro. É assim a minha terra. Uma alegre fantasia.
quinta-feira, novembro 16, 2006
quarta-feira, novembro 15, 2006
reencontro
Encontro casual. Amigas de um outro tempo. Rostos já diferentes. Momento de dúvida. Olhares que se iluminam. Caiu o véu das vidas separadas. O passado revive-se na alegria do reencontro.
terça-feira, novembro 14, 2006
sexta-feira, novembro 10, 2006
quinta-feira, novembro 09, 2006
alquimia
quarta-feira, novembro 08, 2006
felicidade
Creio que só serei feliz no dia em que me reconhecer esse direito.
segunda-feira, novembro 06, 2006
sexta-feira, novembro 03, 2006
"como escrevo"
Creio nunca ter escrito um verso num quarto fechado ou cujas janelas dessem para uma horrível parede; afirmo-me sempre num pedaço de céu, que o Chile me deu azul e a Europa me dá manchado. Melhoram os meus humores quando fixo os velhos olhos num grupo de árvores.
..."
Gabriela Mistral - Antologia Poética - teorema
quarta-feira, novembro 01, 2006
passos
Amanhã dou um salto e mudo de trilho. Não interessa para onde vou, o que importa é caminhar.
terça-feira, outubro 31, 2006
livros
Retirado en la paz de estos desiertos,
Con pocos, pero doctos libros juntos,
Vivo en conversación con los difuntos,
Y escucho con mis ojos a los muertos.
Si no siempre entendidos, siempre abiertos,
O enmiendan, o fecundan mis asuntos;
Y en músicos callados contrapuntos
Al sueño de la vida hablan despiertos.
Las Grandes Almas que la Muerte ausenta,
De injurias de los años vengadora,
Libra, ¡oh gran Don Josef, docta la Imprenta.
En fuga irrevocable huye la hora;
Pero aquélla el mejor cálculo cuenta,
Que en la lección y estudios nos mejora.
Francisco de Quevedo y Villegas
segunda-feira, outubro 30, 2006
domingo, outubro 29, 2006
procura
Hermann Hesse - Siddhartha
sexta-feira, outubro 27, 2006
quarta-feira, outubro 25, 2006
terça-feira, outubro 24, 2006
sexta-feira, outubro 20, 2006
debaixo da chuva
Esta humidade espessa parece deformar a visão das coisas, dilatando-as. E não sei se por isso, ou outras razões, creio que também inchamos por dentro. Como se a brisa da chuva trouxesse consigo os medos e o desassossego, sensações demasiado cheias…
Vê-se em cada rosto que passa, uma pressa que não é só de fugir da chuva que cai. Estugam-se os passos em urgência de chegar a outro lugar, ou simplesmente de fugir de onde se está… Como se fossemos andorinhas e em algum momento tivéssemos perdido as asas. Agora, em vez de voarmos para longe, ficamos aqui, debaixo da chuva.
quarta-feira, outubro 18, 2006
poeta
tens na palavra a pedra,
dura rocha que enformas
em formas agrestes,
por vezes suaves..
conforme a alma
que, generosamente, lhe dás.
Suando, febril,
crês assim que alivias
essa dor de ser
que escorre de ti em palavras graves,
abruptas,
em golfadas...
Mas há dias,
ò mágicos dias..
em que o cinzel é rápido
e leve o toque
e uma alegria viva e nervosa,
a que não chega viver,
brota de ti jorrando
em fonte caudalosa,
fresca e pura,
em sensitiva certeza do milagre que é ser azul o céu.
terça-feira, outubro 17, 2006
liberdade..
Todos os dias tolhemos a nossa liberdade. Livremente escolhemos pequenas prisões fruto de convenções, desejos materiais, ou até, querer a alguém bem demais. Crendo-nos livres nessas escolhas, fugimos, de facto, do nosso eu mais profundo que aprisionamos na cave escura e húmida do sonho adiado, do grito abafado.
Ser livre é escolher a solidão, abraça-la com a coragem de quem não quer nada nem a ninguém a não ser a satisfação plena do que dá na real gana, doa a quem doer. Liberdade?
segunda-feira, outubro 16, 2006
"enquanto as folhas se deixam morrer"
nos meus olhos existe o teu rosto
e renasço sempre que chegas
vou levantar-me mais cedo
para ficar a olhar pela janela a rua molhada
o cipreste, a glicínia e as rosas
e deixar o frio amanhecer despertar-te
para de novo te ver procurar-me na cama
e lentamente ver-te envelhecer"
Ulisses Rolim - Enquanto as folhas se deixam morrer
Castelo de Vide - Setembro 2006
quarta-feira, outubro 11, 2006
"mientras las hojas se dejan morir"
"así llegará el miedo de perderte
el dolor de la distancia
como cuando pasaba las tardes en el canal
así llegará la ausencia
mientras las hojas se dejan morir
y las noches sean largas
y silencioso el frío
en el fondo de la villa prolongaré la atardecida
y una vez más extenderé la mano
para sentir tu rostro"
terça-feira, outubro 10, 2006
segunda-feira, outubro 09, 2006
nina
Castelo de Vide - Setembro 2006
palavras minhas
Também eu gosto de brincar com as palavras:
Balões coloridos ao sabor da vontade,
róseos nas alegrias,
cinza nas tristezas ou rubros nas paixões.
Bem sei,
falta-me o talento para fazer castelos
com príncipes, princesas e dragões.
Tão pouco sei fazer canções,
Com rimas e coros afinados.
Ao contrário,
a minha harmonia é trôpega,
desajeitada e infantil.
Mas que importa...
Se dão cor ao meu sentir
E me acompanham na solidão do ser.
Que mais posso querer..
As minhas palavras são singelas,
Importantes, só para mim.
Que mais posso querer delas,
São minhas..
domingo, outubro 08, 2006
criança
"Deus criou-me para criança, e deixou-me sempre criança. Mas por que deixou que a Vida me batesse e me tirasse os brinquedos, e me deixasse só no recreio, amarrotando com as mãos fracas o bibe azul sujo de lágrimas compridas? Se eu não poderia viver senão acarinhado, por que deitaram fora o meu carinho? Ah, cada vez que vejo nas ruas uma criança a chorar, uma criança exilada dos outros, dói-me mais que a tristeza da criança o horror desprevenido do meu coração exausto. Doo-me com toda a estatura da vida sentida, e são minhas as mãos que torcem o canto do bibe, são minhas as bocas tortas das lágrimas verdadeiras, é minha a fraqueza, é minha a solidão, e os risos da vida adulta que passa usam-me como luzes de fósforos riscados no estofo sensível do meu coração."
Bernardo Soares - Livro do Desassossego
sábado, outubro 07, 2006
"liberdade"
"Ser livre é querer ir e ter um rumo
e ir sem medo,
mesmo que sejam vãos os passos.
É pensar e logo
transformar o fumo
do pensamento em braços.
É não ter pão nem vinho,
só ver portas fechadas e pessoas hostis
e arrancar teimosamente do caminho
sonhos de sol
com fúrias de raiz.
É estar atado, amordaçado, em sangue, exausto
e, mesmo assim,
só de pensar gritar
gritar
e só de pensar ir
ir e chegar ao fim."
Armindo Rodrigues
sexta-feira, outubro 06, 2006
quinta-feira, outubro 05, 2006
viagem partida
Que estranho é saber-te longe,
Num país de calor tropical e águas límpidas.
É estranho porque antes levavas-me contigo.
Íamos os dois, num mesmo pedaço de sonho,
numa mesma asa de avião.
Sempre gostámos de viajar, assim, juntos.
Sempre nos deslumbrámos com o sabor da aventura
o deixar ir, assim, à toa.
Sem plano, sem mapa, sem destino…
Só com o destino de viajar,
De entregar o coração ao tempo,
O sentir ao deslumbramento,
Os teus e os meus olhos ao mesmo mar.
Agora viajas só e eu fico.
Antes viajei só e tu ficaste.
Que estranho viajar este,
Assim, partido ao meio.
quarta-feira, outubro 04, 2006
aqui no buraco onde guardei a minha vida.
É um buraco estreito e poeirento,
onde só chega uma réstia de luz.
Aqui sufoco.
Abro a boca,
mas a brisa corre para outro lado.
Abro a boca,
mas o grito congela.
Como num sonho,
mover-me não posso.
Em suspenso,
hiberno.
_ Aguarda, tem calma...
Mas e se hoje for o meu último dia?
_ Mais um dia, só mais um dia..
espera,
espera que não tarda..
Mas a minha vida retarda.
E depois? Que fazer com ela?
Como uma viagem no tempo
em que o viajante se engana na saída
_ Demasiado tarde, demasiado tarde!
Já tudo passou,
já o mundo acabou,
já o viajante não serve para nada.
E a máquina do tempo avariou,
encalhou,
ali,
terça-feira, outubro 03, 2006
Pedro era um menino tímido de 6 anos de idade. Na escola andava sempre sozinho, fugia dos outros meninos. Na hora do recreio pedia à professora para ficar na sala. Não por não gostar dos outros meninos, pelo contrário, costumava observá-los à distância, escondido por trás da porta, desejando juntar-se a eles para jogar à bola. Também não era por receio, pois ele sabia jogar muito bem, em casa da avô, costumava treinar, dava cada chuto que a bola só parava no telhado... Não, também não era por orgulho, não era por já terem desistido de o convidar.. O Pedro era um bom menino e não era muito diferente dos outros. Muito não, mas havia uma coisa que em não era igual: no sorriso.
Não se sabia muito bem porquê, mas desde que nascera, o Pedro nunca conseguiu sorrir. E ele bem que se esforçava. Sempre que alguém lhe sorria, queria retribuir, mas a única maneira era puxar os cantos da boca com as mãos. O que sabia ser ridículo. Nessas ocasiões, fugia, a chorar. Ninguém percebia _ Se calhar é tontinho, coitado!
Que triste um menino sem sorriso... É como um pássaro que não sabe voar, sempre a saltitar... Falta-lhe o azul do céu e o vento para planar... É triste pois não é livre. E o pássaro não nasceu para ficar no chão... Era assim o Pedro, um pássaro que não sabia voar.
Que frustração, deveria ser tão fácil como respirar. Uma coisa que nascesse com ele, em que não tivesse que pensar. Mas nada era tão difícil como sorrir. Nem as contas na escola, nem os textos do livro de Português.., o Pedro até era o primeiro da turma. Mas sorrir...já nem digo rir, pois sorrir era tudo quanto ambicionava,.... não, não conseguia!
Este era um problema tão grande que o impedia de fazer e desfrutar de muitas das coisas que os outros meninos gostavam. Por exemplo, nunca ia ao Circo. Não por não gostar de Palhaços, ele adorava-os, mas quando eles faziam Palhaçadas só chorava, pois não conseguia rir... Sabendo que o fazia sofrer, os seus pais já tinham desistido dessa terapia. E tantas terapias haviam tentado....
Desde os 2 anos que o levavam a todos os médicos de que ouviam falar. Mas era um mistério, até parecia um encantamento. Não era nada físico. Nenhum problema muscular. O Pedro fazia tudo o resto, comer, falar, cantar.. Não era nenhum trauma que conseguissem identificar e também não era falta de amor. Os pais adoravam-no. E como se afligiam. Eles bem que tentavam não mostrar ao Pedro como sentiam a sua diferença. À frente dele agiam com naturalidade: falavam-lhe com carinho, contavam-lhe histórias, perguntavam-lhe pela escola, aos Domingos faziam-lhe a sua sobremesa favorita (mousse de chocolate), levam-no a passear à beira do rio...., sem nunca lhe pedirem um sorriso. Mas à noite, ele bem ouvia a sua mãe chorar... E como lhe doía faze-la assim tão triste. Logo a ela, que era um Anjo a sorrir.
Farto de ser diferente, o Pedro decidiu que iria procurar ajuda, mas à sua maneira.
Uma noite, levantou-se sorrateiro e saiu de casa em direcção ao bosque que havia ali perto. Tinha esta ideia que se conseguisse subir ao alto de uma árvore e pedir ao sol, quando nascesse, para lhe conceder a graça de o fazer sorrir, de certo ele o ajudaria.
O Pedro tinha muito respeito pelo Sol. Quando lhe falavam em Deus, era no sol que pensava. Pois se Deus tudo via, era por que estava lá no alto, em posição privilegiada de ver. Então, Deus só podia ser o Sol. Só que Deus precisava de estar em todo lado e isso, ao contrário do que lhe diziam, ele sabia ser impossível. Era por isso que o Sol se repartia com a Lua e, por isso, havia noite e, por isso, havia Inverno. Assim, o Pedro achava natural que Deus ainda não o tivesse visto, logo, que não o tivesse ouvido. E a Lua, toda a gente sabe, não tem os mesmos poderes que o Sol. Além disso, é um bocado míope. Acreditava assim que se subisse à árvore mais alta do bosque, antes de o Sol nascer, seria o primeiro que o Sol veria, assim que chegasse.
Então, lá seguiu para o bosque, em busca da árvore mais alta. No caminho teve medo, claro, pois ele tinha muita imaginação e havia tantos barulhos... não faltaram Duendes e Fantasmas para o assustar, mas o Pedro era valente. Agarrou a lanterna com toda a força, cerrou os dentes e seguiu, sempre em frente, determinado.
E lá chegou, ao pé da árvore mais alta. Era um Freixo, muito velho e imponente. Pelo respeito que sentiu, lá chegado, disse-lhe ao que vinha e o Freixo, compreensivo, convidou-o a subir pelo seu tronco acima, oferecendo-lhe os seus braços como escadas. Mas mesmo assim, não foi uma tarefa fácil. Demorou uma boa meia-hora a subir. Quando chegou ao topo já a noite se rosava. Empoleirou-se então no ramo mais alto, à espera.
Passado um pouco, ainda mal tinha desfrutado da paisagem que gozava lá de cima, eis que surge o Sol ...belo, grandioso... Primeiro emudeceu, mas lembrando-se ao que vinha, lá lhe falou. No princípio a medo, depois mais seguro, lá lhe contou tudo.. Para seu espanto, o Sol calou-se, parecia reflectir... Passados alguns minutos, de repente, sem explicação, desatou a rir, a gargalhar, tanto que ficou quente e até a Lua fugiu a correr [é que a Lua não se dá com o calor]. Seja como for, o sol riu, riu e riu...o Pedro nem sabia o que pensar. Primeiro, espantou-se, depois indignou-se e a seguir acalmou-se. Começou a reparar na situação _ Onde é que já se viu o Sol rir assim?... E era tão engraçado, rebolava-se todo, lançava os raios para o alto, como tentáculos de polvo e ria, ria... E como é tão gordo, a rir, fica mal jeitoso, ridículo... E o Pedro, espantado, começou a sentir uma cócega morna... uma coisa que lhe nascia na barriga, que foi subindo, subindo, até que lhe rebentou na boca, como aqueles rebuçados com líquido lá dentro... Quando deu por si, ria, com a boca toda aberta, dentes de fora e tudo. Tanto, que tinha que agarrar a barriga (como via os meninos fazerem de vez em quando, agora percebia). Tanto, que até as lágrimas lhe escorriam pela cara a baixo. Só que, desta vez não era de chorar, mas de rir.
O que o sol lhe disse, quando se acalmaram ambos, é um segredo só deles. No entanto, vos digo, desde então, sempre que fica triste, no alto do Freixo o Pedro vamos encontrar.
segunda-feira, outubro 02, 2006
"...O único sentido íntimo das cousas
é elas não terem sentido íntimo nenhum.
Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
sem dúvida que viria falar comigo
e entraria pela minha porta dentro
dizendo-me Aqui estou!
(Isto é talvez ridículo aos ouvidos
de quem, por não saber o que é olhar para as cousas,
não compreende quem fala delas
com o modo de falar que reparar nelas ensina.)
Mas se Deus é as flores e as árvores
e os montes e o sol e o luar,
então acredito nele,
então acredito nele a toda a hora,
e a minha vida é toda uma oração e uma missa,
e uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.
Mas se Deus é as árvores e as flores
e os montes e o luar e o sol,
para que lhe chamo então Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;
porque se ele se fez, para eu o ver,
sol e luar e flores e árvores e montes,
se ele me aparece como sendo árvores e montes
e luar e sol e flores,
é que ele quer que eu o conheça
como árvores e montes e flores e luar e sol.
E por isso eu obedeço-lhe,
(que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio?).
Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,
como quem abre os olhos e vê,
e chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes,
e amo-o sem pensar nele,
e penso vendo e ouvindo,
e ando com ele a toda a hora."
Alberto Caeiro - O Guardador de Rebanhos
Não quero que esta menina
se transforme em andorinha;
voa a mergulhar no céu
e não desce à minha esteira;
num beiral faz o ninho
e as minhas mãos não o vestem.
Não quero que esta menina
se transforme em andorinha.
Não quero que esta menina
venha a ser uma princesa.
Com sapatinhos doirados
como brincará nos prados?
E quando vier a noite
ao meu lado não se deita.
Não quero que esta menina
venha a ser uma princesa.
E menos quero que um dia
façam dela uma rainha.
A um trono subiria,
lá onde os meus pés não chegam.
E quando viesse a noite
não poderia merecê-la.
Não quero que esta menina
seja um dia uma rainha!"
Gabriela Mistral
quinta-feira, setembro 28, 2006
Há muitos, muitos anos, já lá vão mais de mil, minha mãe soltou-me para o mundo, ainda o dia ia comprido e o Verão fecundo. Foi num prado verde que caí, o prado do Carvalhal. E, como sempre acontece, foi por uma série de acasos, que fiquei, germinei e cresci, o Carvalho que hoje sou, da bolota que era antes.
Quase me comeu o bacorinho que por ali passou. Quase me levou o esquilo do Carvalho grande. E o menino da aldeia, que vinha para ali brincar, um dia chutou-me para o alto e, por sorte, ao lago não fui parar. Quis assim o destino que na terra fofa caísse e que, nas andanças de quem por ali passava, a pouco e pouco me enterrasse e de chuva fosse molhada. Este foi o tempo antes de tudo.
Mas os dias foram passando, e dentro de mim foi germinando, a alma grande e tranquila do Carvalho da Vila. Volvidos tantos e tantos anos, sol posto, sol nascido, Verão, atrás de Verão, fui crescendo. Folha nascida, folha caída, fui alargando. Meu tronco cresceu, alto e orgulhoso. Minha pele endureceu e enrugou, quase tanto como a do meu primo Sobreiro que hoje mora ali mais adiante. E este foi o tempo do começo de tudo.
Alegre e altaneiro, ali estava eu, no prado. Estação após estação, Esquilos escolhiam-me para seu abrigo. E as suas correrias, que maravilha,faziam-me cócegas com as patitas, e eu ria... Tanto quanto pode rir um carvalho velho, com os braços e tudo. E o mocho, como eu gostava do mocho, à noite fazia-me companhia – Uuh-uuh! – que alegria. Ah! E o pastor, que vinha com o seu rebanho, parava sempre na minha sombra a descansar, entregando-se à minha guarda, para os seus sonhos velar. E como ele sonhava, às vezes até chamava dormindo _ Maria, Maria..(acho que era a sua ovelha favorita). E este foi o tempo da Alegria.
Depois, já não me recordo bem quando, mas um dia, enquanto dormia, máquinas (hoje sei que é assim que se chamam, foi o Joãozinho que me ensinou, de quem ainda não falei, mas que o meu melhor amigo se tornou) vieram para o prado. E com seu ronco grave me acordaram e começaram a cortar. Oh! Que lágrimas chorei, quando minha mãe levaram. Sim, um Carvalho também chora! Chorei as minhas folhas todas, ainda o Verão ia no princípio. Creio que a minha mãe foi a primeira, e, depois, todos os outros se seguiram. Foi só por sorte, pelo chuto que levei me ter deixado, aqui caído no meio de tudo, que não fui também cortado. E este foi o tempo que pensei ser o último.
E aqui fiquei, só, no meio do prado que já não era. Com tanta agitação à minha volta que mal conseguia dormir. Fechei os olhos, pensei, para não mais abrir. Esperando, rezando, que também a mim me levassem. É que já não havia Esquilos, nem Mocho, nem Pastor. E este foi o tempo em que deixei de existir.
Calor frio, calor. Molhado, seco, molhado. Assim, media eu o tempo. E um dia, que sobressalto, uma cócega, debaixo do braço. Será? Poderia ser?.. Já nem me lembrava... Abri os olhos. Pisquei-os, pois a luz já não conhecia. Mas a pouco e pouco, fui me habituando, e que vi?... à minha volta uma praça e, eu, no meio de um bonito jardim. Mais adiante, rodeando a praça, casas grandes, altaneiras, mas não tão grandes como eu, Carvalho Orgulhoso. Mas melhor que tudo, trepando por mim acima, fazendo-me cócegas de novo, o João, hoje, meu maior amigo... E este foi o tempo do recomeço de tudo!
quarta-feira, setembro 27, 2006
[..dentro desabrocharam palavras. Reguei-as, acarinhei-as e elas cresceram. Toma-as, são tuas minha querida..]
Pressinto uma Rosa que não conheço.
Imagino uma Rosa que não vejo.
Qual a cor dos teus olhos?
Castanhos, verdes, azuis..?
Só sei que os anima o fogo dos Heróis.
Guerreira pela vida,
Nada temas querida,
que nós, humanos,
te necessitamos.
Rosa que de espinhos
tens apenas a espada
da tua luta,
que doçura,
que alegria..,
enquanto agulhas te ferem,
beijas tua fortuna.
Rosa, mais que a Rosa
perfumas a vida...
Inspiras os que por ti passam
a quererem mais,
a acreditarem mais...
Querida Rosa,
mais que Rosa,
és um Anjo
para o comum dos mortais!